O futuro do movimento anti-assédio no mundo

Futuro do Movimento a

#FEMINISMO #EMPODERAMENTO #RESISTENCIA

Quando a Chega de Fiu Fiu foi lançada em 2013, ainda não se falava no Brasil sobre o assédio de rua da maneira como o entendemos hoje. Em uma busca do Google realizada antes da campanha nascer, “assédio sexual” trazia entre os primeiros resultados sites que falavam sobre assédio sexual no ambiente de trabalho. Cenário parecido foi encontrado pela ameriana Emily May, co-fundadora da Hollaback!, maior ONG de combate ao assédio em locais públicos nos EUA, em 2005. Hoje a organização conta com mais de 85 filiais no mundo inteira e é parceira da Think Olga aqui no Brasil.

De lá para cá, esses movimentos se multiplicaram dentro e fora do país. A busca do Google mencionada anteriormente traz resultados drasticamente diferentes. Hoje temos pesquisas, dados, militantes, ONGs, projetos de lei e várias iniciativas debruçadas sobre o fim de uma violência sofrida diariamente pelas mulheres e que comprovadamente causa danos psicológicos, emocionais e de ordem prática em suas vidas, limitando seu direito de ir e vir.

Captura de tela 2016-08-13 às 3.26.14 PM.png

A internet trouxe uma força incrível para essa luta. A nossa Chega de Fiu Fiu começou inteiramente online e ainda tem muito mais força na internet que fora dela, embora seja importante levar em conta que os impactos dela na vida offline sejam difíceis de mensurar. Boa parte desses movimentos no mundo inteiro partilham dessas mesmas características e desafios. Se olharmos para o nosso passado, sabemos que avançamos muito. Mas quais serão as nossas próximas conquistas?

Porque melhorar o futuro se podemos reinventá-lo?

Entre os dias 8 e 12 de março, fomos para a Itália participar do Bellagio Street Harassment Convening. 21 lideranças do combate ao assédio em locais públicos do mundo inteiro estiveram presentes em um workshop de quatro dias para desenharmos o futuro global da luta contra o assédio. Uma tarefa e tanto, devemos dizer, mas definitivamente necessária para avançarmos globalmente na busca pela liberdade de simplesmente existir em paz ao colocarmos os pés para fora de casa.

O fato é que o assédio de rua é socialmente aceitável no mundo inteiro. Em algumas regiões com mais prevalência e sempre observando as interseccionalidades que o tornam ainda pior para determinados grupos, mas, de forma geral, é legitimado pela sociedade, pela mídia e por grandes instituições. Nosso trabalho foi questionar as raízes que levam agressões a uma parte da população a ser vistas como parte da vida cotidiana na grande maioria dos países.

Na base de tudo isso está o poder ou, mais especificamente, sua distribuição desequilibrada. Seja por cor, gênero ou não conformidade com os padrões sociais preestabelecidos, quem sofre assédio na rua historicamente faz parte de minorias em espaços de poder. E, se entendemos que determinados sujeitos são mais suscetíveis à violência por combinar em si mais características histórica, econômica e socialmente oprimidas, então o movimento contra o assédio precisa expandir-se e abarcar também essa realidade. Se o machismo e o racismo sofridos por uma mulher negra, por exemplo, não são indissociáveis, logo o combate a essa agressão também não deve ser.

É nessa concentração de poder entre iguais (diga-se homens brancos heterossexuais) que fincam-se e criam-se os comportamentos que possibilitam a normatização sistemática do assédio nas mais diferentes sociedades e sua enorme gama de manifestações, como por exemplo:

  • A objetificação, a hiperssexualização e a comoditização do corpo feminino levam à noção de que o valor da mulher está em sua aparência. Isso não apenas dá aos assediadores a certeza de que seus avanços sexuais indesejados são elogiosos, mas também à muitas muitas vítimas que os recebem e entendem como uma validação desejosa. Além disso, esses comportamentos desumanizam as mulheres que, valorizadas apenas pelo valor sexual de seus corpos, são despidas de intelecto, inteligência e sentimentos, ocupando na sociedade um papel ornamental e secundário.
  • Tudo isso é legitimado por uma mídia pensada por e para homens, na qual mulheres são estereotipadas para reforçar papéis clássicos de gênero (a mãe, a virgem, a santa, a puta, a dona encreca, etc).
  • Homofobia e transfobia que, por si só, marginalizam grupos que fogem do padrão heteronormativo como levam à uma exacerbação da masculinidade tóxica como escape. É o combustível de piadas de gay, “coisas de mulher”, do medo do filho “virar bicha” e preferir que ele reproduza machismo a ter esse destino. Quem, de alguma forma, se apresenta como gay ou trans* em locais públicos é alvo de violência, escrutínio, segregação e humilhações das mais diversas. Uma violência também silenciada pela noção de que, quem assim se apresenta socialmente, “precisa estar preparado para isso” quando, na verdade, todos têm o direito a ocupar espaços públicos em paz.
  • Essa socialização de gênero desde a infância incute desde a mais tenra idadenoções do papel de mulher e do papel de homem na sociedade. Não raro, pais incentivam  que os filhos beijem ou “roubem beijos” de meninas para mostrar que são homens desde cedo. E as meninas a aceitar agressões e ofensas como parte da personalidade masculina. Eles são incentivados a brigar, conquistar, lutar e, conforme crescem, têm apoio dos pais e da sociedade para explorar a própria sexualidade, sendo incentivados a ser assertivos e conquistar mulheres. Não apenas porque isso é sinal de poder na sociedade, como também pela homofobia, o medo da “desgraça” que é ter um filho homossexual. Às meninas, resta uma romantização eterna de sua pureza e a imposição precoce de padrões de beleza cuja conformidade está relacionada à atração de parceiros do sexo masculino.
  • Racismo e anti-negritude (o ódio específico contra pessoas negras) tornam o assédio de rua ainda mais complexo. As mulheres negras são ainda mais sexualizadas que as brancas  e, assim, sofrem assédios mais frequentes, agressivos e violentos. São apresentadas à sexualidade de seus corpos desde muito cedo e desenvolvem estratégias para lidar com essa realidade. Reações negativas levam a agressões verbais machistas e racistas ou até mesmo físicas. A cor da pele agrava o assédio, que é vivenciado por determinadas mulheres de maneira mais intensa que outras.
  • Nos EUA, movimentos como Black Lives Matter combatem o chamado racial profiling, ou “perfil racial”, que torna pessoas negras mais suscetíveis a ser abordadas por forças de estado e tratadas com violência, truculência e, por vezes, são sentenciadas com a morte por policiais. No Brasil, cinco jovens sofreram fim parecido pelo mesmo motivo, racismo, ao ter seu carro fuzilado pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. Em diversos países, a crise dos refugiados tem levado a um aumento substancial de xenofobia, racismo e islamofobia. Essas questões sociais, recentes ou não, são agentes na limitação da liberdade de movimento em espaços públicos e refletem como determinados grupos sentem-se no direito de assediar e limitar o trânsito de outros.
  • A culpabilização da vítima, principalmente em casos de assédio sexual, levam a consequências gravíssimas. Desde a aceitação do próprio incômodo com o assédio como algo a ser ignorado (“A culpa é sua por usar esse vestido. Homem é assim mesmo, agora aguenta!”, “Depois vai sentir falta…”), ao desestímulo à denúncia e à reclamação sobre o assunto, até traumas emocionais causados por essa inversão de valores.
  • A culpabilização da vítima e a normalização do assédio geram também uma falta de consequências negativas àquele que assedia, eliminando qualquer impedimento ao ato. Ainda que mulheres reclamem e se digam desconfortáveis, a aceitação social desse tipo de comportamento legitima e até valoriza o homem que age dessa maneira.
  • Instituições, públicas ou privadas, ainda são comandadas, em sua maioria, por homens brancos nos altos cargos de poder, oriundos de uma socialização que os privilegia e interessados em manter seus próprios interesses. Quando estes são grandes tomadores de decisão em uma sociedade, as causas caras às mulheres e demais minorias políticas vão para o fim da lista de prioridades. É esse descaso que levam a uma polícia despreparada para lidar com casos de estupro, RHs comprometidos em abafar e acobertar casos de assédio sexual e escolas a proibir alunas de usar shorts, mas liberar os meninos para fazer o mesmo. O discurso proveniente dessas instituições são valorizados e compõe a noção coletiva do que é certo ou errado em uma comunidade.
  • O assédio por vezes é defendido como tradição e traço cultural de determinados locais. Questioná-lo, para muitos, é tentar modificar  identidade de um povo. Entretanto, elas não são intocáveis e, oriundas de sociedades patriarcais, não só podem como devem ser revistas em tempos de minorias empoderadas.
  • Ainda que muitos grupos surjam para combater o assédio, a falta de recursos para os mesmos é um problema mundial. A trivialização do problema torna muito difícil a captação de patrocínios e o financiamento de iniciativas de combate ao problema.Em muitos países, apesar da abordagem do tema ter se tornado mais séria com o passar dos anos (caso do Brasil), ainda é difícil encontrar apoiadores para realizar ações de impacto contra o assédio, viabilizar campanhas maiores e mais complexas de conscientização, desenvolver tecnologias, etc. Some-se a isso a criação de iniciativas similares em um já sobrecarregado universo de organizações que lutam por causas sociais, tornando ainda mais acirrada a disputa pelos escassos recursos disponíveis.
  • Existe ainda a cobrança pessoal pelo desempenho de gênero. Com medo de perder poder e respeito perante a comunidade, homens e mulheres reproduzem comportamentos tidos como aceitáveis que colaboram com  manutenção das opressões sociais. A insegurança sobre si mesmos e sobre o que constitui um bom caráter leva os indivíduos a agir de maneira machista, pois é o que entendem como o estado normal das coisas e quaisquer alterações podem significar mudanças percebidas como negativas, ainda que esse comportamento mantenha boa parte da população à margem da sociedade. É o medo do diferente.

Existem inúmeros outros comportamentos e manifestações, muitos dos quais foram discutidos no encontro. A situação dos imigrantes na Europa, o movimento Black Lives Matter nos EUA, os estupros de mulheres na Índia. Quando olhamos para a questão do assédio de maneira global, fica difícil definir uma conduta que atenda a todas as interserccionalidades que se apresentam. Entretanto, independente da geografia e das diferentes opressões que atuam nessa dinâmica, todos lutamos pelo direito ao movimento em espaços públicos.

É esse o diferencial do trabalho que todos reunidos nessa convenção internacional fazemos. Queremos o direito de existir no mundo sem pedir licença ou precisar justificar nossa presença. O direito de andar nas ruas a qualquer hora, utilizando qualquer tipo de transporte, sem ter medo de ser vítima de uma violência. Os gays, as mulheres, as pessoas de cor, os imigrantes, as pessoas trans*, os portadores de necessidades especiais: todos temem não apenas agressões, mas a exclusão silenciosa, o não pertencimento à comunidade.

Como resultado desse encontro na Itália, a Think Olga e outras 15 organizações contra o assédio no mundo inteiro, criaram um novo movimento, ainda sem nome, pelo movimento em espaços públicos. Com um campo de trabalho mais amplo, outras iniciativas e indivíduos ainda serão convidadas a fazer parte e ajudar na construção dessa nova empreitada pela felicidade de todxs, mas temos orgulho em anunciar e fazer parte da criação de um novo futuro.

Um futuro no qual ninguém se sinta no direito de discriminar o diferente em espaços onde todos têm o direito de estar. Mais que o fim do fiu fiu, desejamos um mundo no qual todos tenham a possibilidade de alcançar seu potencial máximo independente de quem seja ou onde esteja. Somos um movimento pela equidade pública: esse é o futuro da luta contra o assédio no mundo.

Fonte: Think Olga

 

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s